Do Clique ao Resumo: Quando os Media Deixam de Ser Destino e se Tornam Matéria-Prima

Image by Googel DeepMind @ Pexels

Num pequeno-almoço de trabalho com um diretor de um jornal económico surgiu uma ideia que não é nova — mas que é cada vez mais difícil de ignorar: os meios de comunicação estão a deixar de ser o destino para se tornarem a matéria-prima com que outras plataformas constroem respostas.

Antes, entrávamos no meio para nos informarmos. Agora, muitas vezes, o meio fica «por baixo», como fonte que alimenta um resumo ou resposta consumida sem sair do interface do motor de busca.

Pensemos num hábito concreto. Quando fazemos uma pesquisa no Google e aparece um resumo gerado por IA (AI Overviews) antes de decidirmos em qual link clicar — ou quando perguntamos diretamente a um modelo de linguagem e recebemos uma resposta já estruturada. O Google apresenta isto como uma evolução natural da pesquisa: fazer «mais trabalho por si». Em parte, é o que faz. A diferença é que esse «trabalho» inclui uma função que antes era mais distribuída: a intermediação.

Durante anos, o percurso dominante era: título → clique → leitura → opinião. O percurso atual tende a ser: pergunta → resumo → conclusão… e, se tiver sorte, link. Isto altera a posição do meio na cadeia de valor. Se o utilizador resolve a sua necessidade de informação na camada do resumo, o meio deixa de ser o lugar onde se constrói a relação e passa a ser o material que a alimenta — noutro sítio.

O Pew Research Center descobriu que, quando aparece um resumo de IA, os utilizadores são menos propensos a clicar nos resultados e quase nunca clicam nas fontes citadas no próprio resumo. A atribuição existe, mas o hábito de ir à fonte diminui.

Análises como a do Ahrefs estimam também uma queda relevante na CTR (Click-Through Rate) quando há AI Overviews (o dado mais citado: -34,5 % na 1ª posição da amostra). O resumo compete com o clique — e muitas vezes ganha por conveniência.

A consequência mais interessante — e talvez a mais preocupante em termos de reputação — não é apenas «menos visitas». É a mudança do vínculo. A confiança já não se constrói apenas com um cabeçalho, uma assinatura ou uma linha editorial; constrói-se através de uma experiência que ordena o mundo e o apresenta com uma voz uniforme, convincente e rápida. Nesta transição, o utilizador fica com a sensação de ter compreendido… sem necessariamente ter absorvido o contexto.

É por isso que o debate começa a mudar de cenário. A ação judicial da Penske Media contra a Google devido às AI Overviews mostra que o setor interpreta esta questão como uma discussão sobre o uso de conteúdos e a sustentabilidade do modelo editorial.

Ainda assim, vale a pena evitar leituras apocalípticas. Se o ponto de partida se tornar conversacional, o que diferenciará o meio não será «publicar mais», mas ser verdadeiramente insubstituível: ter um arquivo sólido, especialização real, rastreabilidade, continuidade e capacidade de sustentar nuances — precisamente aquilo que o resumo tende a diluir.

Fico com uma ideia que surgiu nesse pequeno-almoço: talvez o futuro dos media esteja menos na primeira página e mais no arquivo. Menos nas visitas e mais na impressão que deixa no leitor.

E deixo uma pergunta em aberto para quem trabalha com reputação: se a conversa acontece fora do meio de comunicação, como evitamos que o critério do meio se torne invisível?

Marta Olabarría Álvarez
Corporate Communications Specialist | Nova 111 Student List Winner Marketing & Communications

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