Combater a informação falsa em tempo de crise

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Todos, em tempo de crise, somos responsáveis pela informação que partilhamos nos nossos círculos sociais, grupos familiares, ambientes de trabalho, académicos, ou de qualquer outra índole.

Desde o início desta situação de crise sanitária causada pela Covid-19 que nos deparámos com uma epidemia quase tão perigosa e que se propaga tão rapidamente como o coronavírus: a da informação falsa.

A era digital, para além de ter alterado drasticamente o paradigma informativo, veio permitir que qualquer pessoa possa divulgar e partilhar todo o tipo de afirmações, verdadeiras ou não. Hoje a crise chama-se Covid-19, mas já tínhamos começado a ver a repercussão das fake news com a doença das vacas loucas no início do milénio, a gripe das aves em 2005, a gripe A em 2009 ou com o vírus Ébola em 2014, só para referir situações relacionadas com a saúde. Assistimos a momentos de ruído, gerado sobretudo pelas notícias da crise, quando se torna muito difícil escutar as mensagens positivas.

Já sabemos, ou deveríamos saber, que a maioria das mensagens que nos chegam massivamente por WhatsApp e que são reenvios de reenvios, são maioritariamente rumores e falsidades. No entanto, damos-lhes atenção e até lhes conferimos credibilidade, que até pode chegar à automedicação ou à adopção de práticas cuja eficácia não está de todo demonstrada. Uma credibilidade que, inexplicavelmente, chega inclusivamente a alguns meios de comunicação.

No caso do coronavírus, os rumores e falsidades proliferam muito mais rápido do que a própria infecção. 

A desinformação em tempos de crise pode propagar a paranóia, o medo e a estigmatização, tendo um impacto muito directo na segurança e no bem-estar das pessoas. Um estudo publicado na revista Science demonstra que as fake news se propagam de forma mais rápida, mais profunda e mais amplamente do que a verdade em todas as categorias de informação. Para compreender como se propagam as notícias falsas, Soroush Vosoughi utilizou um conjunto de dados de rumores no Twitter entre os anos 2006 e 2017. Cerca de 126.000 rumores foram difundidos por 3 milhões de pessoas. As notícias falsas chegaram a mais pessoas do que a verdade. 

Se a estes resultados de difusão viral juntarmos o factor crise sanitária, o medo gerado pelo desconhecimento, a incerteza e a dúvida, o que nos resta? O resultado é uma difusão maior da epidemia da informação falsa porque, perante uma notícia que gera medo, é mais fácil que se tome a decisão de lhe prestar atenção. O medo, ou melhor, a incerteza sobre o que irá suceder, está na origem do comportamento impulsivo. Nesta linha, o estudo da Science afirma que, se as notícias falsas se aproveitam de emoções como o medo, o nojo ou a surpresa, têm mais probabilidades de serem partilhadas.

Em situações de crise e perante a dúvida da legitimidade da informação que estamos a consumir, é muito importante recordar a importância de se recorrer a fontes fiáveis para estarmos bem informados. Esta é a única maneira de combater as fake news e vencer a batalha da epidemia da informação falsa. 

Dar atenção a rumores, arquivos de áudio e vídeos sem procedência identificada, partilhados nas redes sociais e em aplicações várias, centrando a conversa permanentemente na evolução da crise da Covid-19 contribui para aumentar a nossa preocupação e as nossas dúvidas. Todos os dias, centenas de mensagens viajam de telemóvel para telemóvel mais rápido do que o próprio vírus. De facto, de acordo com um relatório realizado em 2018 pelo Estudio de Comunicación Madrid, 37,4% dos inquiridos admitiram terem partilhado notícias falsas, ainda que inconscientemente. Há que ter em atenção as fontes, seleccionando apenas aquelas que sabemos que são fiáveis e credíveis, como meios de comunicação reconhecidos ou peritos legitimados. Entre as mais destacadas encontram-se as fontes oficiais, as fontes institucionais e as agências de notícias (https://www.slideshare.net/EstComunicacion/estudio-informe-fakenewsestudio-de-comunicacion). 

Por último, há que reforçar que comunicar em tempo de crise é saber que qualquer palavra que emitamos com o objectivo ou não de gerar uma opinião pode afectar ou ter impacto no bem-estar social e pode expandir-se de forma viral. Portanto, o bom senso tem de imperar, pois a responsabilidade de diminuir o medo que paira no ar é responsabilidade de todos e de cada um de nós, especialmente dos que nos dedicamos diariamente à comunicação.

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