Quando o discurso corporativo choca com a realidade diária

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Existe um fenómeno que desgasta o talento muito mais rapidamente do que uma carga de trabalho pesada: o gaslighting corporativo (ou manipulação corporativa). Ocorre quando a narrativa oficial de uma empresa ou instituição e a prática diária dos seus responsáveis caminham em direções opostas, mas pedem à equipa que ignore o que vê com os próprios olhos.

Esta discrepância de verdades manifesta-se de formas muito concretas. Colaboradores que vêm a empresa vangloriar-se das suas medidas de bem-estar e equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, mas continua a recompensar a disponibilidade a qualquer hora. Ou quando se apela à transparência informativa, mas se ocultam as verdadeiras razões por de trás das mudanças de rumo ou das decisões estratégicas. Ou até mesmo discursos sobre o valor dos funcionários para a empresa, mas que são ignorados e desprezados em momentos difíceis.

O erro mais comum na comunicação interna e, especificamente, na gestão da cultura organizacional, é tentar preencher o abismo entre o discurso e gestão com mais conteúdo, mais campanhas ou eventos de equipa. Não há estratégia de comunicação interna que se sustente quando o funcionário sente que a sua realidade diária é negada pela narrativa oficial da empresa.

Quando um profissional percebe que a liderança ignora sistematicamente os problemas apontados pela própria equipa, a resposta não é um maior esforço, mas sim uma total desconexão e afastamento. Não se trata apenas de falta de motivação, mas de uma ruptura com a organização.

A comunicação interna não deve ser o departamento que mascara as incoerências das chefias. A sua verdadeira função é garantir que o que a empresa afirma ser coincide com o que se passa nos bastidores. Em última análise, a coerência não é um bónus, é o único alicerce sobre o qual se pode construir a cultura e a comunicação interna de uma organização.

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Na comunicação, o que não se vê, não existe. Mas o que se sente permanece.

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