Imprensa regional, um desígnio nacional

Açoriano Oriental (1835), Jornal do Fundão (1946), Comércio do Funchal (1966). 

O que deve o país a estes três títulos? Do seu local de origem, geografias periféricas e em contextos políticos, económicos e sociais específicos representaram um farol de resistência, debate e difusão de ideias que em muito extravasaram as suas regiões. E a todos os outros títulos da imprensa dita regional? O que contribuíram para a construção da opinião pública e publicada em cada um dos seus contextos e na diáspora, por exemplo? O que deve o país, o nosso, aos 36 jornais centenários que ininterruptamente  continuam a sua missão, a maioria deles regionais, fazendo de Portugal o país com mais jornais centenários do mundo ainda em circulação?

A história e caminho de cada um destes títulos (a par de tantos outros espalhados de norte a sul) revela-nos que a imprensa regional não é só passado. E história. Tantas e tantas vezes, é das periferias (mas afinal onde está o centro?) e das margens que chegam os movimentos precursores da mudança. As ideias e os projectos que a partir de um centro descentralizado fazem o seu caminho.  

Mas também um presente que se quer traduzido numa sociedade democrática. 

A imprensa regional responde ao perfil de consumo dos habitantes de uma dada região e da sua diáspora. A um sentimento de pertença, como bem salientam os estudos nesta área. O que se passa no aqui, mas também no mundo visto daqui, da perspectiva do local para o global e do seu inverso.   

Mas, talvez a maior luta, o grande desígnio que terá pela frente, seja vencer o preconceito. Das elites centralizadoras vocacionadas para projectos de poder e interessados numa sã convivência/conivência com os media nacionais e, também, da própria classe. Os jornalistas! 

A imprensa regional tem como missão contribuir para um jornalismo plural, atento a todo o território, informar e escrutinar de forma livre e próxima dos cidadãos. As dificuldades porque passa são transversais a todos os meios, sejam eles nacionais ou locais. Do modelo de negócio e viabilidade económica, à dependência de poderes interessados em “condicionar” a liberdade...

É uma responsabilidade de todos lutar por uma imprensa regional forte e independente, envolvida na sua comunidade e que aborde assuntos locais que não chegam aos meios nacionais. Que diga respeito às pessoas. Caso contrário, teremos uma sociedade mais pobre e cidadãos menos informados. Será, certamente, um retrocesso na qualidade da nossa democracia.

Diz-nos um olhar atento que a sobrevivência está assegurada. Tem de estar. Projectos editoriais como os do grupo dos Diários de Aveiro, Coimbra, Leiria e Viseu, ancorados numa gráfica; a junção do centenário Setubalense ao dinâmico Diário da Região ou o grupo editorial do Barlavento que assegura inúmeros títulos de referência para nichos de mercado de estrangeiros a viver no Algarve têm demonstrado o dinamismo dos profissionais destes meios e a capacidade de encontrar um rumo. Um rumo para uma imprensa que emprega cerca de 1400 jornalistas (em relação aos 1000 da imprensa nacional) e que supera em número de títulos (500 generalistas e 50 especializados) as publicações de âmbito nacional (156 generalistas e 348 especializados), segundo dados de 2020 da Associação Nacional de Imprensa (API).  

Anterior
Anterior

Querem matar o CEO?

Próximo
Próximo

Branding à prova de futuro: nativo digital e preparado para conquistar o Mundo.